Entrevista com Natalie Gedra

Após um longo tempo, voltamos com as entrevistas para o blog. Desta vez, tivemos o prazer de entrevistar Natalie Gedra, correspondente da ESPN Brasil em Londres, ex-Rede Bandeirantes e Rede Globo. Extremamente simpática, falou sobre o ambiente inglês nos estádios, sobre a política do "novo" Chelsea, o novo Stamford Bridge e muito mais! No fim do post, deixarei a entrevista na íntegra, com todos os detalhes.

Natalie está em Londres desde 2016. (FOTO: ESPN Brasil)
A entrevista foi comandada por Gustavo de Araújo.

Como você enxerga o meio do futebol na Inglaterra? Há machismo? Como é em relação aqui no Brasil?
Há machismo em praticamente todos os lugares. Você vê poucas mulheres aqui, principalmente no dia-a-dia, nos jogos. Mas por exemplo, naquelas entrevistas especiais que nós fazemos, a gente vê muita mulher fazendo. [...] A principal diferença aqui é que você vê repórteres mais velhas, no Brasil as meninas são todas muito novinhas, com carinha de nova no vídeo (inclusive eu). O machismo no Brasil é pior, quando a gente fala da abordagem do torcedor. No Brasil você é ofendida de forma baixa, e não importa quem você seja. Já ouvi coisas horríveis no estádio. Pela Globo foi a emissora que eu mais ouvi xingamento num estádio de futebol. Várias vezes eu já saí muito mal de estádio de futebol e aqui isso não acontece. Lá (no Brasil) esses insultos eram mais pesados. Me chateava muito. 

Como é a atmosfera dos estádios ingleses? Há alguma semelhança com os estádios daqui do Brasil?
É bem diferente. O torcedor brasileiro é mais passional, interage mais. E depois de tudo que aconteceu, todos os problemas de estrutura dos estádios ingleses no final da década de 80 e começo dos anos 90, teve que passar por toda uma reestruturação. Os torcedores têm que ficar sentados e isso influi muito no clima do jogo. Normalmente os torcedores visitantes cantam mais que os mandantes. É engraçado isso. É uma atmosfera diferente, é mais familiar. As semelhanças são raríssimas, pra não falar que não tem.

Há quanto tempo está em Londres? Aquiriu empatia com algum clube inglês?
Estou em Londres desde setembro de 2016, vim fazer o mestrado. Mestrado em Gestão Esportiva. Você acaba tendo maior simpatia por alguns clubes. Honestamente, não tenho um clube que eu torço. O Chelsea é um dos clubes que eu adquiri uma simpatia, porque eu gosto muito de fazer jogo lá. O ambiente é muito acolhedor. Os brasileiros do Chelsea são muito legais também, eu gosto muito do David (Luiz) e do Willian, então ajudou a adquirir a simpatia. 

Pelas entrevistas pós-jogo e as notícias que saem em Londres, qual é o ambiente de Antonio Conte dentro do Chelsea? Os jogadores seguem gostando da forma que ele trabalha?
Pra falar disso eu tenho que tomar muito cuidado, porque jornalista tem essa mania de achar que ele sabe mais só pelo que ele sente, mas quem sabe mesmo é quem tá lá dentro do clube. Mas o clima é diferente, bem diferente do ano passado. A temporada já começou com um desgaste com toda a situação do Diego Costa. Você vê alguns jogadores demonstrando irritação, saindo irritados do jogo. Eu sinto a relação um pouco desgastada. Novamente, é um sentimento. É um fato? Não. A sensação que eu tenho é que a relação está um pouco mesmo desgastada. O Diego (Costa), o David (Luiz)... e mesmo no dia-a-dia os jogadores reclamando da carga de trabalho e algumas coisas que ele fala na imprensa como "Eu não tenho que pensar no bem-estar dos jogadores, tenho que pensar no clube". São posturas que indicam que não é o melhor clima. 

O ambiente de Antonio Conte no Chelsea não é dos melhores. (Independent)
Qual sua opinião sobre a política de contratação desse "novo Chelsea", que já não investe toneladas de dinheiro em um jogador apenas? 
[...] O Conte mesmo disse que eles operaram um pequeno milagre na temporada passada, porque não gastam tanto, não são tão ricos e financeiramente eles não são tão poderosos. É tudo questão de circunstância, eu acho inteligente até porque o Chelsea vai construir seu novo estádio e é uma política equilibrada de contas. E o Abramovich pode ter todos os defeitos, mas ele é um bom gestor. Ele gastou muito dinheiro no clube e agora ele sabe que terá que gastar com outras coisas. Eu acho bom pro futebol que o clubes gastem menos, mas não sei se vai se provar que é uma boa estratégia. Eu gosto que um clube gaste pouco. 

Pelas notícias aí de Londres, como está o andamento das coisas para a contrução do novo Stamford Bridge? Qual a expectativa dos torcedores?
Tá enroscado, né? Eles estavam com um problema com uma família que dizia que o estádio ia atrapalhar uma propriedade deles, que é caríssima. Todo mundo estava falando que já ia começar na próxima temporada (a construção), mas eu já entrei em contato com o Chelsea algumas vezes pra fazer matérias sobre o novo estádio e eles são muito cautelosos. Não querem falar ainda sobre isso. A gente tem pouco acesso ao andamento disso. Eles (os torcedores) ficam um pouco incomodados por ver os rivais com grandes estádios, mas também existe aquele sentimento saudosista. O Stamford Bridge é um estádio muito legal.

Também tem a sensação de que o Chelsea é um clube "odiado" tanto dentro da Inglaterra, como fora? Acha que a grana russa influencia? 
Eu não sinto isso, sabia? As vezes as pessoas ficam um pouco assim, porque existem clubes tradicionais como Liverpool e United com uma tradição de títulos muito forte antes do investimento milionário. Por exemplo, aqui o Tottenham é um clube muito odiado e isso me surpreendeu. Tanto é que as torcidas cantam "If you hate Tottenham, stand up" (Se você odeia o Tottenham, se levante), se você vai num Chelsea v Arsenal, o estádio todo se levanta. Existe uma antipatia, mas eu acho que é maior no Brasil por conta do dinheiro russo. Aqui, existe também uma antipatia com o City, que tá colocando muito dinheiro. Aí fica uma coisa como "o clube não tem história", o que é um pouco injusto.

"If you hate Tottenham, stand up!" (IMAGEM: YouTube)
O futebol já não é o mesmo, os resultados muito menos e agora começam a surgir polêmicas extra-campo. Acredita que Antonio Conte siga no Chelsea para 2018/19? 
Um pouco difícil, nesse momento. Apesar de todos os pesares, o Chelsea ainda tem ótimas exibições porque tem jogadores muito talentosos. Aqui a cada semana aparece o nome de um treinador que vai assumir o Chelsea. Pela postura dele (Conte) falando nas entrevistas, que o clube não envolve ele nas negociações, que ele não tem os nomes que gostaria de ter, eu acho estranho. Nesse momento, eu acho difícil ele ficar. Tudo depende do restante da temporada. 

Ainda há problemas com Hooligans nos entornos dos estádios na Inglaterra? O Chelsea ainda sofre com isso, mesmo em que pequena quantidade?
Eu nunca vivi nada parecido. O João (Castelo Branco) é uma pessoa que fala bem sobre isso, porque ele está aqui na Inglaterra desde 89. Eu nunca nem passei perto da questão de insegurança que eu tinha nos estádios do Brasil. Já vi muito carro de reportagem quebrado, virado, já corri de briga. Aqui não, nada. 

Sabe dizer se os jogadores têm noção da força da torcida do Chelsea no Brasil? 
Os brasileiros, sim. Os estrangeiros.. eu acho que o clube de uma forma geral ele entende que o Brasil é um pólo importante. Eles têm noção sim, até pela quantidade de brasileiros que jogaram no Chelsea. Historicamente é algo muito forte. O clube trata dessa forma, os brasileiros têm essa percepção e é muito legal isso. 

A seguir, a entrevista na íntegra com o áudio da Natalie Gedra.



Em nome do Blues Of Stamford, agradeço à Natalie Gedra pela oportunidade e pelo tempo disponível para nós. Foi uma entrevista sensacional, abordando temas importantes sobre o Chelsea e até mesmo as diferenças entre a sociedade inglesa e brasileira.

Nos próximos dias, sai o Legends com John Terry e mais entrevistas. 

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