O que falta para o Chelsea integrar o escalão dos grandes protagonistas do futebol europeu?


Por Marco Túlio Loureiro Linhares
Ainda que com a chegada de Maurizio Sarri e a consequente mudança na postura de jogo, com a adoção de um futebol mais ofensivo e mais vistoso, o Chelsea se encontra alguns níveis abaixo de outros grandes clubes do futebol europeu e até mesmo do futebol inglês. A definição de um padrão tático e de uma filosofia de futebol bem como o encaixe de Jorginho no meio-campo, aliado ao talento de Kanté e Hazard não são suficientes para equiparar os blues a potências como Barcelona ou mesmo o City de Guardiola. A falta de um elenco robusto e a decorrente sobrecarga das principais estrelas do time, aliado à falta de variação do padrão tático somam para um Chelsea aquém do que se espera de um clube de relevância mundial. A verdade é que o Chelsea tem sim um bom time, com jogadores capazes de fazer grandes jogos e com um treinador qualificado; mas que peca em competitividade quando posto frente a clubes de mais peso no cenário do futebol internacional.
No setor defensivo, principalmente entre os zagueiros, falta um nome de peso. Rüdiger e David Luiz formam uma dupla de zaga aceitável, mas que peca se exposta a um nível de competitividade acima da média. Simplesmente não dá para confiar nos dois frente a ataques cascudos e rápidos. O brasileiro é famoso por suas trapalhadas e falhas táticas, com idas sem sentido ao ataque e deficiência na cobertura, enquanto o alemão, apesar de bom zagueiro, mostra-se inseguro e instável. Para além da dupla, as opções de banco com o fraco Gary Cahill e o ainda imaturo Andreas Christensen estão longe de trazer solidez ao setor defensivo do Chelsea, enquanto nas laterais, Azpilicueta – que também pode jogar de zagueiro – e Alonso são bons nomes, mas carecem de substitutos à altura.
O meio-campo, ao contrário, apresenta nomes de maior qualidade. Kanté e Jorginho consolidam uma ótima base, combinando, principalmente, a qualidade defensiva do francês com o talento na armação de jogadas do ítalo-brasileiro. Pela terceira vaga, Kovacic e Barkley travam uma boa briga, sendo, tanto o croata quanto o inglês bons jogadores e com potencial de desenvolvimento animador. O problema de elenco limitado, contudo, também se reflete aqui – mesmo que em menor intensidade se comparado à defesa ou ao ataque. O desenvolvimento do meio campo fica concentrado muito em Kante e, principalmente, pensando em ações ofensivas, em Jorginho. Um jogo não tão bom do ítalo-brasileiro coloca em cheque toda produção ofensiva do Chelsea – o que também é um problema de falta de variação tática nas estratégias de Sarri. Barkley e Kovacic não conseguem, ainda que bons jogadores, ocupar um lugar de protagonismo e dar uma cara diferente ao jogo dos Blues.
Porém, mesmo com as deficiências no setor defensivo e no meio campo, é o ataque que sofre mais com a falta de opções. Com a ressalva de Hazard, que é um jogador espetacular, os outros quatro principais nomes do ataque do Chelsea não correspondem às expectativas, mostram-se jogadores limitados e sobrecarregam excessivamente o talento do belga. Pelas beiradas, Willian é até um bom nome, mas vem apresentando um futebol preguiçoso e pouco produtivo, com jogadas repetitivas e ultimamente pouco eficientes; enquanto Pedro é um jogador esforçado, no entanto tecnicamente deficiente. Já na função de homem gol, Morata e Giroud estão muito aquém do ideal de centro-avante para um time com as pretensões do Chelsea. O espanhol é um bom cabeceador, mas extremamente limitado com a bola nos pés ou saindo da área. Giroud, por sua vez, faz bem o pivô e consegue distribuir o jogo estando de costas para o gol, mas só. Um centro-avante não pode se limitar a ser bom jogando bem de costas para o gol, muito pelo contrário, tem que ser letal na frente do goleiro. Não que o espanhol e o francês sejam péssimos atacantes. A questão é o quão limitados os homens-gol do Chelsea são, e como a falta de um nome à altura da função prejudica as ações ofensivas do time.
Além da limitação do elenco, outro problema do time londrino é a falta de variação tática no jogo de Sarri. O 4-3-3 já se mostrou um esquema eficiente, mas a não consideração de outras opções táticas pode ser um calcanhar de Aquiles impiedoso. Com o passar do tempo, o Chelsea começa a se tornar um time previsível, e a anulação das principais peças do time se torna tarefa fácil, principalmente quando enfrentarmos um time de peso, com um grande treinador. Jorginho, por exemplo, se não joga bem ou se é bem marcado, pela natureza do esquema tático, compromete todo o desenvolvimento ofensivo do time; Kanté fica limitado a atuar pelo lado direito do campo, quando, circunstancialmente, pode ser mais vantajoso que o francês atue pela outra faixa, ou até mesmo na sua função de origem, como primeiro homem de meio. O fato é: não se pode limitar o time a jogar sempre da mesma forma, independentemente do adversário que se enfrente, se não voltamos ao mesmo pragmatismo de Antônio Conte que tirou o Chelsea da Champions League dessa temporada. A possibilidade de escalar o time de formas diferentes e defazer com que o time renda, sendo escalado de formas diferentes é uma das qualidades de destaque de um grande treinador.
O que se observa é como ambos os problemas se complementam. Um elenco limitado compromete a possibilidade de variações táticas do time, e um time que sempre joga da mesma forma acaba sendo, com o passar do tempo, um time taticamente limitado. Com isso, ressalta-se a importância não somente da chegada de dois ou três reforços pontuais, a fim de encorpar mais o elenco e de agregar tática e tecnicamente, mas também de Sarri reconhecer a necessidade de, em vista das circunstancias de um jogo específico, modificar a estratégia. O Chelsea até tem um bom time, capaz de competir em alto nível, mas precisa que seu treinador seja maleável e flexível quanto às estratégias de jogo. A partida contra o Tottenham, no último sábado (24), atesta os dois aspectos aqui abordados. O time de Pochettino já sabia o que fazer contra um Chelsea previsível e sem opções no banco que modificassem a cara da equipe, e não tomou conhecimento ao aplicar um econômico 3-1. Resta-nos, torcedor, esperar que Sarri, com o saldo, principalmente do último jogo, perceba a necessidade de flexibilidade tática do time, e que, nas próximas janelas, cheguem jogadores de peso para encorpar o elenco azul.

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