Entrevista com Renato Senise

(Foto: Renato Senise/Twitter)

O Blues Of Stamford entrevistou Renato Senise, jornalista esportivo há 17 anos e atualmente o correspondente da RedeTV em Londres. A conversa foi longa e muito proveitosa. Falamos sobre sua profissão, conselhos para jovens estudantes que pretendem ingressar ao mercado de trabalho atuando na área, Brexit, a postura da torcida inglesa nos estádios e, obviamente, muito Chelsea.

O jornalismo esportivo sempre foi tua prioridade e teu sonho de carreira? Como chegou a ser correspondente na Europa?

"Quando eu comecei a fazer jornalismo, eu tinha duas opções em minha mente: ou ser jornalista esportivo, ou cobrir política. Meu sonho também era cobrir uma guerra (risos). Não que eu seja um cara violento, longe disso, mas eu acho que a coisa mais importante que um jornalista pode fazer é retratar o que está acontecendo em um momento tão difícil como uma guerra. Mas é lógico, sempre fui apaixonado por futebol, então sim, ser jornalista esportivo eu coloco como uma prioridade na minha carreira.

E como eu virei correspondente... é uma história meio longa. Eu trabalhei na ESPN por 15 anos, sendo 13 no Brasil. Fiz tudo o que alguém pode fazer dentro de uma empresa de televisão. Comecei como estagiário, virei produtor, editor de texto e imagem, fiz reportagem, virei editor-chefe de vários jornais. Quando saí do Brasil, eu era o editor-chefe do Linha de Passe e do Resenha. Fui editor-chefe também do SportCenter da noite por dois anos. Após isso, vim para a Europa para estudar música, peguei um ano de licença não remunerada. Estava meio cansado da rotina do Brasil, mas três meses depois o pessoal da ESPN me ligou, perguntando se eu não queria trabalhar para eles aqui da Inglaterra, para escrever para o site, reportagem, ser câmera da Natalie (Gedra) e do João Castelo Branco, como editor... então acabei fazendo de tudo por aqui também. Até que a RedeTV me procurou para ser o repórter número 1 deles para cobrir a Premier League. Eu sei como é a audiência da TV aberta e o projeto é bem legal. É meio arriscado, porque eu não sei como ficará (os direitos de transmissão) para a próxima temporada, mas eu nunca tive medo de correr riscos, então eu resolvi vir pra RedeTV."
Cobrir a Premier League é o auge de um jornalista esportivo enquanto competições nacionais entre clubes?

"Acho que vai mais de gosto. Se você perguntar para dez jornalistas esportivos, talvez sete vão preferir a Premier League e talvez três o campeonato espanhol, para cobrir o Barcelona, Real Madrid, Atletico de Madrid. Ver o Messi jogando todo fim de semana. No meu caso, desde pequeno, sempre quis cobrir a Premier League. Acho o campeonato mais legal, a tradição que a Inglaterra tem no futebol torna a liga ainda mais interessante. Visitar estádios lendários como Old Trafford, Anfield, Stamford Bridge, é um privilégio. Toda vez que eu entro nos estádios eu me encanto. Tenho orgulho de tudo o que aconteceu na minha vida." Qual o atual sentimento da torcida do Chelsea, vista no Stamford Bridge, em relação ao Sarri e o 'Sarriball'?

"As torcidas na Inglaterra são diferentes. Elas não xingam, não vaiam os próprios jogadores e treinadores, mas eu acho que com o Sarri está sendo diferente. Acho que a torcida do Chelsea realmente não gosta dele e de suas escolhas, colocando Kanté fora de posição, Hazard também. Não gostam da insistência dele com o Jorginho. Ele é um jogador que a torcida não gosta, porque ele virou um símbolo do Sarriball. Um jogo apático, burocrático, passes de lado o tempo todo. Eu nunca vi na Inglaterra uma torcida questionar e até cantar contra o treinador, como fazem aqui com o Sarri. Realmente não é um bom ambiente para ele no Stamford Bridge.


Segundo Senise, a torcida do Chelsea não gosta da dupla italiana Sarri e Jorginho. (IMAGEM: Express)

Comparando com o Brasil, isso aqui não é nada. Você não vê o estádio inteiro gritando 'burro' para o treinador. As críticas são em poucos momentos e uma minoria gritando contra. É o pior ambiente que eu vi de um treinador aqui na Inglaterra. A prova disso é que o torcedor do Chelsea gritava muito para o Antonio Conte. Muito mesmo. Eram três ou quatro vezes por tempo, até o final. Mesmo quando já estava claro que o Conte não se dava bem com os jogadores, que o Chelsea não iria se classificar para a Champions League. Mesmo assim, a torcida continuava gritando o nome do Conte e isso me impressionava. Com o Sarri, sequer fizeram uma música. Não há nada."
O Chelsea é um clube que troca de treinador com muita frequência. A sensação é de que Sarri fica mesmo após os maus resultados na temporada ou caso perca o título da Europa League a situação torna-se insustentável?

"Acho que torna-se insustentável. Eu diria que só existe a possibilidade do Sarri ficar, caso vença a Europa League. Ninguém assegura ele no cargo. As vezes a diretoria não gosta do treinador, mas a torcida gosta e ele acaba ficando. Ou os jogadores seguram o treinador. Não vejo o Sarri sendo "seguro" por nenhuma parte. Nem pela diretoria, nem pelos torcedores, nem pelos jogadores. Eu acho muito difícil ele ficar para a próxima temporada.

Nós, jornalistas em geral, e vocês, que cobrem o Chelsea, criticamos muito o clube por esta rotatividade de técnicos, mas desta vez eu nem culpo muito a diretoria. O Sarri parece insistir em ser mandado embora. Por exemplo, essa teimosia em não dar mais chances para o Hudson-Odoi e preferir Pedro ou Willian. Eu não sei se vocês aí no Brasil tem noção da pressão que a imprensa inglesa está fazendo, não só no Sarri, mas também com o Guardiola no City em relação ao Foden. Eles estão vendo uma geração nova muito boa surgindo e estão cobrando mais oportunidades a esses jovens - e com razão. Caso contrário, eles vão acabar saindo do futebol inglês, como foi o caso do Sancho (transferido para o Borussia Dortmund). Então, por tudo isso eu acho muito difícil a situação do Sarri e ele não se ajuda nesse ponto."

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Como você enxerga a situação de Abramovich no clube e na Inglaterra, já que ele teve o visto negado recentemente e isso estaria impactando os investimentos futuros do clube, como a reforma de Stamford Bridge?

"Eu enxergo a relação muito esquisita. Ele não vai mais aos jogos ao Chelsea, por motivos óbvios. Aqui na Inglaterra você não tem acesso nenhum a diretores, muito menos a donos e presidentes de clube, então apenas reportamos o que vem acontecendo com a dificuldade de visto e tudo mais. Não conseguimos conversar com ninguém, não conseguimos sentir o clima. Você só consegue chegar a conclusões pelo que você observa.

Na última janela, já observamos uma postura menos agressiva do clube no mercado. Não é o Chelsea tão ativo. Se eu fosse torcedor do Chelsea, eu ficaria bem preocupado, porque é visivelmente difícil a relação do Abramovich com a Inglaterra e, caso continue tendo dificuldades em conquistar o visto, eu não vejo um grande futuro dele no clube e isso seria um grande problema. Seria um futuro meio nebuloso para o Chelsea não contar com o dinheiro do Abramovich."

Como é o comportamento da torcida inglesa enquanto cobrança aos jogadores e treinador?

"É bem diferente do Brasil. Praticamente não existe uma cobrança direta nos jogos. Por exemplo, eu cobri alguns jogos do Fulham nessa temporada e, mesmo com o time perdendo de todo mundo, em nenhum momento eu vi a torcida vaiando ou 'pedindo a cabeça de alguém'. O que mais impressiona é que, não apenas no Fulham, mas em outros clubes também, quando os jogadores sobem para aquecer, e as vezes são jogadores bem fracos (tecnicamente), e os torcedores sempre aplaudem e até cantam os nomes desses jogadores reservas.


Senise afirma que a torcida inglesa costuma apoiar seus jogadores e treinadores. (Foto: divulgação)

Nunca vou me esquecer uma vez que o Arsenal estava "tomando um baile", sendo goleado por 5 a 1 - não me recordo se contra o City ou Liverpool - e o Walcott ainda estava no Arsenal. Ele subiu para aquecer e a torcida aplaudiu e gritou o seu nome. Já era a sua terceira temporada como reserva e já estava bem claro que aquela eterna promessa não vingaria mais. Era a fase final do Wenger, o time sendo goleado, a autoestima do torcedor lá embaixo, todo mundo tirando sarro do Arsenal, e mesmo assim a torcida apoiando o seu jogador. Acho que isso simboliza bem o clima aqui da Inglaterra. Você vê muita cobrança em redes sociais, mas no estádio é muito difícil."

Como os clubes estão se mobilizando caso o Brexit seja aprovado? Tem algum plano por parte dos mesmos?

"Não. Não existe plano nem do governo britânico, quanto menos dos clubes. O Brexit é uma incerteza, ninguém faz a menor ideia do que vai acontecer. Não tem como os clubes se programarem quanto a isso, porque as regras não estão claras, nem na economia, nem na política, muito menos no futebol."

Há alguma história de bastidor em jogos no Stamford Bridge que queira contar ao Blues Of Stamford?

"Vou contar algumas coisas que talvez o pessoal do Brasil não saiba. Por exemplo, a zona mista do Stamford Bridge é muito peculiar. Na verdade, o Chelsea é o único time da Premier League que não tem uma zona mista. Então, quando acaba o jogo, cerca de dez minutos depois, eles montam a zona mista no gramado. É mais legal, porque fica muito mais bonito do que aqueles banners atrás dos jogadores, mas é muito sofrido. Quando está chovendo ou muito frio, os jornalistas ficam ali esperando e dificilmente os jogadores param para falar.

A sala de imprensa do Stamford Bridge é muito pequena. É um estádio antigo, então em jogos grandes há filas de jornalistas para fora esperando para entrar, e também antes das partidas é ali que eles ficam. O Chelsea, assim como todos os outros clubes, oferecem comida para o pessoal da imprensa, mas a do Chelsea é disparada a melhor. Eles servem um verdadeiro banquete.

Há alguns jogadores que não são muito queridos e outros que não. É impressionante como o David Luiz é querido por todo mundo. Pelos funcionários do clube, pela imprensa em geral. É um cara muito simpático. Ele para pra falar com todo mundo, dá entrevista em francês, inglês, português, até em espanhol. Todo mundo elogia. No Brasil, é um cara meio perseguido, mas aqui ele é adorado.


"David Luiz é querido por todo mundo", revela Senise. (Foto: divulgação)
O Chelsea é o clube que tem mais assessores na Premier League. Acho que são quatro. Há um apenas para o treinador."

Um sonho já realizado na profissão e um que ainda não realizou.

'Bom, meu sonho realizado foi cobrir as Copas do Mundo da Rússia e do Brasil. É muito legal. É um ambiente inacreditável. E um sonho que ainda não realizei é cobrir as Olimpíadas. E nem cobrir a guerra (risos). Não que eu torça para que exista uma guerra, pelo amor de Deus, mas como jornalista, gostamos de reportar. E seria interessante reportar um ambiente tão hostil e triste como é uma guerra."

Um conselho para jovens que estão na faculdade de jornalismo e têm o desejo de trabalhar com esporte.

"Trabalhe. É impressionante como o jornalismo é difícil hoje. Muito mais difícil que quando eu entrei no mercado, há 17 anos. Era muito mais fácil entrar, havia muito mais oportunidades para jovens. O conselho é trabalhar e não desistir. De 50 pessoas que se formam numa sala de jornalismo, 3 conseguem realizar o sonho de trabalhar com jornalismo esportivo. A maioria acaba virando assessor. Não há espaço para todo mundo. Então aconselho a acreditar, lutar, tentar se aproximar de jornalistas mais conhecidos e famosos e também usar bem as redes sociais. Isso é uma preocupação que eu tenho. Eu vejo um molecada usando mal (as redes sociais), agredindo pessoas. Vejo a rede social como algo muito importante. As empresas, quando vão dar um emprego a alguém, sempre vêem a rede social. Se vêem uma pessoa agressiva, que não respeita a opinião dos outros, torcidas de futebol, outros clubes... um jornalista não pode fazer isso. Se você quer ser um jornalista isento, quer cobrir futebol em geral, grandes competições, isso é um grande erro.

Produzir conteúdos legais nas redes sociais, sem agressão, sem xingamento. No começo da carreira, principalmente, com o mínimo de opinião possível. Se basear em fatos, em dados legais e aos poucos ir colocando a sua opinião. O jornalista precisa de embasamento. No meu Twitter você encontra pouca opinião. Eu procuro primeiro colocar um dado e depois opinar sobre. Não me vejo como alguém grande ainda para ter a opinião valorizada por todo mundo, então prefiro embasar em dados.

Muita coisa do que falei aqui é a minha opinião, não é fato. É a minha percepção de mundo e da nossa profissão. E isso vale até para o Blues Of Stamford. É um perfil bem legal, que baseia muito de suas opiniões em fatos. Eu gosto de seguir o Blues Of Stamford, diferente de alguns outros canais, perfis, que eu vejo muita agressão entre um perfil e outro. Todo mundo ama futebol. Tirar sarro é legal, faz parte, porém sem agressão. Sem barraco na internet."

Em nome de todo o Blues Of Stamford e dos nossos seguidores, agradecemos o Senise pelo tempo disponibilizado para nos conceder esta grande entrevista. Muito sucesso na caminhada! Cheers.

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