É preciso mudar a mentalidade do clube e do torcedor

Mount é um dos jovens que a torcida terá que ter paciência. (Foto: divulgação)

Cornetar treinador deveria ser reconhecido oficialmente como um esporte nacional. Afinal, quem não gosta de criticar um esquema tático, palpitar em contratações ou até mesmo dizer aquele bom e velho “até eu faço esse time jogar melhor que esse cara!". 

Na realidade as coisas não acontecem assim (ainda bem) e precisamos traçar um paralelo importante entre a responsabilidade do treinador e as possibilidades de alcançar tais resultados

Para fazer essa reflexão, gostaria de voltar alguns anos e convidar você a se perguntar: se o Chelsea tivesse contratado um treinador de mentalidade voltada para o ataque quando demitiu José Mourinho pela segunda vez, como estaria nossa situação hoje? 

Muitos dirão logo de cara que De Bruyne, Salah e Lukaku (“demitidos” pelo Special One) estariam até hoje no clube e nós estaríamos no mesmo patamar que hoje estão Liverpool e Manchester City. Outros, por outro lado, defenderão a tese de que Antonio Conte chegou na hora certa, mudou a cara (tática e mental) do time e que a decisão tomada na época foi correta, principalmente pelo título inglês da temporada 2016/2017. 

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Eu penso por um terceiro caminho. Explico. 

Tanto a contratação de Mourinho naquela época quanto a escolha de Conte para substituí-lo foram feitas pensando no agora. Ou seja, o planejamento e necessidade era sair do final da tabela e, consequentemente, disputar títulos e isso aconteceu sob o comando de Conte. Mas após problemas de relacionamento fora de campo, outro italiano veio para assumir o comando do Chelsea e, dessa vez, acredito que com grandes esperanças de um trabalho à longo prazo: Maurizio Sarri. 

Como a história terminou, todos sabemos. Título da Europa League incontestável e mais uma temporada trocando de técnico. Ou seja, no final das contas, o agora prevaleceu mais uma vez. 

O ponto que quero chegar é o seguinte: até quanto trocaremos de técnico temporada sim, temporada não? Olha, por incrível que pareça, esse não é um texto sobre Frank Lampard ou nenhum outro treinador. Esse é um texto sobre o longo prazo

Kepa (24 anos); Emerson (25), Tomori (21), Guehi* (19), James (19); Jorginho (27), Kanté (28), Loftus-Cheek (23), Hudson-Odoi (19), Abraham (21) e Mount (20). Pela primeira vez em muitos temos em mãos um material que é totalmente compatível com o longo prazo. Por mais que com eles grandes títulos vieram, sabemos que Mourinho (mentalidade defensiva, de jogabilidade baseada em resultado imediato), Conte (sistema de jogo que favorece a solidez defensiva e muita pegada física) e Sarri (que não é muito fã de trabalhar com jovens) esse time não daria liga. Uns seriam emprestados e outros eternos reservas ou se tornariam jogadores de minutos finais. 

Frank Lampard e o Chelsea tem a faca e o queijo na mão para pensar no longo prazo e montar uma verdadeira máquina, com imensas chances de competir por tudo em alguns anos. Tudo isso sem mencionar as possíveis contratações após o transfer ban, a boa vontade de grande parte da torcida por ver o maior jogador da história do Chelsea a beira do campo e por esse time ser recheado de ingleses. 

O que parecia ser um texto sobre treinadores (eu disse que não seria), acaba sendo um texto sobre algo que muitos (as vezes, inclusive eu) têm dificuldades em lidar: paciência. Afinal, o melhor momento para deixar o agora de lado é, curiosamente, agora.

*Guehi é zagueiro e destaque do time de desenvolvimento (U23).


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1 Comentários

  1. Texto sensacional! Infelizmente a impaciência vem dominando desde o início da Era Abramovich. Foram incontáveis as negociações descartáveis e sem planejamento e o ciclo se repetia de novo e de novo com as mudanças de treinador. O investimento na academia ao menos foi uma decisão acertada e ao menos agora podemos ter perspectiva e acima de tudo identidade. Era praticamente impossível termos jogadores como Terry e Lampard que amam o clube se os atletas se acostumaram a amar as cifras

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