Como funciona a política de contratações do Chelsea?



A associação do Chelsea com grandes contratações foi marca característica dos primeiros anos após a compra do clube pelo bilionário russo Roman Abramovich. O objetivo sempre foi transformá-lo em uma potência inglesa e europeia, e seu novo dono investiu pesado trazendo quem havia de melhor no mercado, não importassem as cifras envolvidas. José Mourinho, Petr Cech, Ricardo Carvalho e Didier Drogba são alguns dos nomes contratados no início da "Era Abramovich" que fizeram história em Stamford Bridge e ajudaram a construir a reputação da equipe.

De alguns anos para cá, o que se percebe é uma mudança clara de orientação na política de contratações. Não é que deixamos de buscar os melhores jogadores, mas a "gastança" desenfreada deixou de ser a regra. Uma das razões foi, sem dúvida, a entrada em vigor do Fair Play Financeiro imposto pela FIFA, que determina que os clubes não podem gastar mais do que arrecadam em receitas. Apesar de não vermos muitas sanções sendo impostas por conta da norma, a verdade é que ela existe, hoje está em prática e precisamos nos adequar a ela.

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A segunda razão, a meu ver, tem relação com uma mudança na política interna do clube. O Chelsea passou a concentrar esforços em trazer jogadores jovens, com potencial de crescimento técnico e com possibilidade de revenda futura. De maneira semelhante, o olhar para a base ganhou maior carinho, investimentos em melhorias de infraestrutura foram feitos e isso resultou em conquista de títulos importantes, tanto a nível doméstico quanto a nível internacional. Com isso, a revelação de promessas passou a ocorrer em maior escala e a própria torcida fazia coro para a utilização mais frequentes dos garotos no time profissional.

Qual o problema, então, com a atual política de contratações? Na verdade, é possível apontar alguns, no plural mesmo. O primeiro deles é a limitada participação dos técnicos nas decisões sobre o assunto. Não precisamos ir muito longe para lembrar dos problemas recentes que tivemos com José Mourinho, Antonio Conte e, mais recentemente, Maurizio Sarri. O ponto em comum entre eles? A reclamação de falta de suporte por parte da direção na hora de contratar. Sarri, entretanto, foi o que teve maior suporte, já que conseguiu trazer Jorginho e Higuaín, indicações suas, para Stamford Bridge. Isso reflete uma mentalidade de que, a qualquer momento, o técnico pode ser demitido e acabar deixando heranças "não desejadas" para o futuro.

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O segundo problema é a falta de estratégias na hora de negociar a busca por reforços. Temos observado uma certa intransigência do clube na definição dos alvos, seguido de tentativas infrutíferas para tirá-los de suas equipes, negociações longas e, em geral, com desfechos nada positivos ao Chelsea. Tomemos essa janela de janeiro como referência. Era conhecida a necessidade por um zagueiro, um lateral esquerdo e um atacante, já que as saídas de Marcos Alonso e Giroud eram esperadas e a defesa tem sido o ponto fraco, até o momento. Para a zaga, cogitou-se a recompra de Nathan Aké, que, pela versatilidade, poderia até fazer a lateral e acabar com os dois problemas de uma só vez. Para o ataque, diante da impossibilidade de contar com Timo Werner agora, o nome preferido era o de Moussa Dembélé, do Lyon. Também foram tentados Edinson Cavani, do PSG, e Dries Mertens, do Napoli.

O perfil dos três é diferente entre si, o que já mostra uma certa falta de direcionamento. A condução das negociações também ocorreu de maneira completamente equivocada, já que nunca estivemos nem mesmo perto de anunciar qualquer um dos alvos. Nos três casos, o Chelsea ofereceu menos do que era esperado por Lyon, PSG e Napoli, o que é natural. O que não é compreensível é a insistência em propostas que, sabidamente, seriam rejeitadas, fazendo com que perdêssemos um tempo (precioso) num período já limitado.


Cavani não foi liberado pelo PSG nesta janela. (Foto: divulgação)

Finalmente, o terceiro problema não é exatamente particular aos Blues, mas é algo que afeta a todos na Premier League: a "inflação". Por ser o campeonato mais televisionado do mundo, os valores dos contratos de transmissão estão entre os maiores da Europa, o que puxa para cima todas as demais receitas: patrocínios, material esportivo, camarotes, entre outros. Apenas para exemplificar, o Fulham, rival local do Chelsea, gastou mais de £100 milhões em reforços para a temporada passada - o que não o impediu de ser rebaixado, ainda assim. Portanto, todos os clubes têm noção do quanto podem cobrar por um atleta de interesse de alguma equipe inglesa e não facilitam na hora de negociar. Não por acaso, nas últimas temporadas, vimos três defensores ultrapassarem a casa dos £70 milhões (Virgil van Dijk, Kepa Arrizabalaga e Harry Maguire), algo até então nunca visto.

Para o verão, é preciso admitir que a situação não é das mais favoráveis para os Azuis de Londres. Depois da demonstração de amadorismo e incompetência dada na janela de inverno, clubes como Borussia Dortmund e Red Bull Leipzig tendem a dificultar o máximo possível as negociações, caso optem por vender Jadon Sancho e Timo Werner. E é preciso lembrar que, para viabilizar a chegada dos dois, é preciso minimamente garantir o quarto lugar na Premier League, uma tarefa que se tornou ainda mais complicada sem a chegada de novos jogadores. Definitivamente, a missão de Lampard não é fácil para o restante da temporada, e a diretoria precisa, de uma vez por todas, apoiar seu técnico e oferecer-lhe as melhores condições para que desenvolva seu trabalho.



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