Não há motivos para confiarmos na diretoria

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Eu começo esse texto perguntando se você confia na diretoria do Chelsea. Pode parecer uma brincadeira, mas não é. Allan, outro colunista do Blues Of Stamford, fez um ótimo artigo dizendo que a direção falhou com Frank Lampard e eu quero fazer um paralelo a esse texto. 

Nos últimos 9 anos, mesmo com a conquista da Champions League, quais foram as diretrizes que a diretoria traçou para que o Chelsea fosse um time de sucesso e autossuficiente? Até hoje, não enxergo um planejamento, um objetivo, um norte, que seja. Abaixo vou listar os pontos de conflito que mostram que nossa diretoria está mais perdida do que parece.

O começo da confusão

Voltemos a 22 de maio de 2011, dia em que o Chelsea demitiu Carlo Ancelotti por não ter atendido às expectativas e performance desejadas, mesmo tendo terminado a Premier League na segunda colocação.

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É nesse contexto que o Chelsea inicia um longo período de má gestão que, mesmo com a falta de planejamento observada, inexplicavelmente resulta em títulos, mas longe da consistência que os torcedores desejavam. O futebol é cíclico, porém não vemos uma linha de trabalho sendo seguida em Stamford Bridge. 

Fernando "floppy" Torres

Em meio a uma temporada frustrante, em janeiro de 2011, o Chelsea contratou Fernando Torres, do Liverpool, por cifras pornográficas (£50m). A fim de, mais uma vez, mostrar poder, o Chelsea presenteia Ancelotti com um dos melhores centroavantes do mundo (à época). Mas há um problema: o técnico italiano não foi consultado pela contratação de Fernando Torres, deixando uma evidente falta de comunicação entre o clube e o comando técnico. A relação entre os dois estava indo de mal a pior. Com isso, a pressão sobre Ancelotti aumentou, até porque, no entendimento de Abramovich, o investimento feito era para vencer a Premier League e não foi o que aconteceu.

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Após a demissão, Ancelotti disse que não foi o melhor momento para trazer Fernando Torres (janela de inverno) e isso não foi benéfico para a equipe. Logo menos, Torres se mostrou mais um erro e uma falta de avaliação da diretoria imediatista e extravagante. 

A "chegada" de Emenalo

A saída de Ancelotti também culminou com a chegada de Michael Emenalo. Desde 2007 no Chelsea, Emenalo assumiu a posição de diretor técnico em julho de 2011. 

Reprodução Chelsea FC.

Talvez a pessoa na diretoria dos blues que eu mais tive raiva, Michael Emenalo foi uma das peças-chave para a bagunça que nós nos tornamos. Seus mandos e desmandos com o intuito de mostrar força e poder minaram muitos treinadores. Totalmente sem rumo, sem critério técnico, com contratações equivocadas e falta de comando do vestiário do maior de Londres, comprometeu nosso futuro (até hoje) e expôs toda nossa falta de direção.

Ruptura com as raízes

Todos sabem que, por anos, tivemos José Mourinho no comando da equipe e foi implantada uma identidade, um estilo de jogo inconfundível e altamente vencedor. O park the bus, ignorando a bola por vezes, foi muito frutífero. Sendo sincero, não é o estilo de jogo dos meus sonhos, mas é inegável que era eficiente. Um futebol reativo, resultadista e deveras feio, mas que nos proporcionou 2 Premier Leagues (2004/05 e 2005/06), 1 Copa da Inglaterra (2006/07), 1 Supercopa da Inglaterra (2005) e 2 Copas da Liga Inglesa (2004/05 e 2006/07) durante a sua primeira passagem, até 2007.

Reuteus

A primeira ação de Emenalo tinha que ser uma jogada chamativa e, claro, para mostrar serviço à diretoria. É nesse ponto que quero chegar: tudo que foi feito desde 2004 foi descontinuado com a contratação de mais um português, agora o André Villas-Boas. Emenalo não exitou em pagar £13m para tirar o português de seu país natal. O gajo chegou com moral elevada, após uma temporada muito vitoriosa no Porto, vencendo todos os títulos possíveis em Portugal, além de uma Europa League. 

Porém, não conseguiu repetir o sucesso na Inglaterra e acabou demitido em março de 2012, quando o Chelsea perdeu diversas partidas e o técnico entrou em rota de colisão com os medalhões do grupo.

O sucesso inesperado

Em 2012, um dos grandes ídolos da história do clube, Roberto Di Matteo assume a equipe londrina com a missão de apaziguar o vestiário e tentar diminuir o desastre deixado por Villas-Boas. O italiano nos leva a um improvável (quase impossível) título de Champions League, o ápice da história do Chelsea. Mesmo aos trancos e barrancos, chegamos lá e Di Matteo foi muito importante para isso. Não por ser um gênio da tática, mas por saber lidar com estrelas do elenco e fazer o feijão com arroz. 

Estagiários inexperientes não estão prontos para um projeto a longo prazo

Foi neste ponto que a diretoria do Chelsea não soube analisar um trabalho de "apagar as chamas" de Roberto Di Matteo e apostou no italiano para começar a temporada 2012/13. Tudo errado, mais uma vez. 

Mercado frustrante

Chelsea foi ao mercado e fez grandes contratações, incluindo Eden Hazard. Mas acabou perdendo seu goleador e lenda do clube, Didier Drogba, para a China. O pior disso tudo é que o clube não se preparou para perder o marfinense por suas funções dentro e fora de campo. Apostavam numa remontada de Fernando Torres, que não aconteceu. 

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Derrocada do ídolo

A primeira partida "válida" de Di Matteo foi um sinal: a derrota por 3-2 para o Manchester United. Depois, tomou banho de bola do Atlético de Madrid na Supercopa Europeia (4-1). O técnico não terminou a temporada e acabou demitido após perder para a Juventus por 3-0 e ser eliminado na UEFA Champions League. 

Tirando mestrado em errar

Para substitui-lo, o Chelsea contratou, pasmem, Rafael Benítez. Sim, uma das lendas do Liverpool e que em toda entrevista dizia que odiava o Chelsea. Não tinha como dar certo. 

No Chelsea, Benítez sempre viveu no limite da pressão, e não era para menos. O clima não era nada bom em Stamford Bridge e, até hoje, não se sabe como conseguimos conquistar a Europa League. Ao fim da temporada, o espanhol foi demitido.

The Iron lady

O temporada de 2013 marca a chegada de Marina Granovskaia, o "braço direito" de Abramovich. Essa é mais uma peça-chave na bagunça que se tornou o Chelsea. 

The Iron lady, como é conhecida, a russa chega à diretoria para certificar que o dinheiro que gasto no futebol o seja de maneira responsável e criteriosa. Pode-se entender isto como um recado a Emenalo que Abramovich não estava nada satisfeito com o seu trabalho. 

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Marina é excepcional nas finanças. Conseguiu vender cada pereba que, muitas vezes, duvidamos que faria. Mas contratou diversos outros a peso de ouro, da mesma forma. 

The special one voltou

A contragosto de Emenalo e alinhada à vontade de Abramovich, José Mourinho volta ao Chelsea para a temporada 2013/14. Emenalo não gostou nada daquilo e a 'vingança' viria (da pior forma). Afinal, quem mandava no futebol? Qual era o projeto para o clube?

Dispensas equivocadas

Até hoje, ecoa-se por Stamford Bridge a pergunta "Como o Chelsea deixou sair, De Bruyne, Lukaku e Salah?". Bom, à época, a venda de alguns deles pareceu acertada. Em 2013, o Chelsea emprestou Lukaku após ele perder um pênalti na Supercopa da UEFA contra o Bayern, o que beira o bizarro. É preciso lembrar que o clube apostou muito nele - inclusive enfrentou um período sem contratar por causa disso - e precisava de um centroavante, mas preferiu emprestá-lo ao Everton. Mais tarde, sua saída se mostrou um grande erro. 

O caso do De Bruyne foi mais complicado, pois no meio campo ele enfrentava uma concorrência desleal com Lampard, Matic (chegou em janeiro), Oscar (recém contratado), Willian (recém contratado) e Ramires. Mesmo assim foi mais um erro de avaliação.

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Salah chegou em 2013/14 após duas boas temporadas no Basel, mas Mourinho deu poucas oportunidades e sequência ao egípcio e ele saiu na temporada seguinte. 

A saída que mais me doeu nessa temporada (2013/14) foi a de Juan Mata. O espanhol foi importantíssimo ao Chelsea desde que chegou do Valência, em 2011. Carregou a equipe nas "costas" por muitas vezes, não a toa vestiu a nossa camisa 10. E, por não se encaixar no esquema tático de Mourinho, leia-se imposição física, nosso maestro foi vendido ao Manchester United. Mais um erro da nossa diretoria, reforçando um rival. 

O adeus de uma lenda

Frank Lampard talvez seja a maior referência do Chelsea em toda a sua história e a maneira que a diretoria agiu para que ele saísse foi vexatória. O tratamento que uma lenda teve de seu clube de coração foi uma vergonha e até hoje isso me dói, não tinha explicação plausível. Pior ainda foi vê-lo em outro clube inglês, fazendo gol contra sua ex-equipe e chorando por isso. Parabéns aos envolvidos! 

Estamos de volta aos trilhos? 

Que nada. O Chelsea venceu a Premier League de maneira incontestável sob a batuta do Special One na temporada 2014/15. A felicidade estava de volta a Stamford Bridge. Mas lembra que, quando mencionei a contratação de José Mourinho, Emenalo daria o troco na Marina? Pois então, começou a sabotagem do nigeriano. 

Em 2015, Mourinho assinou uma renovação de contrato de 4 anos. Parecia que a estabilidade estava de volta. As contratações foram discretas, mas as perdas foram irreparáveis, como Cech, Ramires e Drogba. 

A temporada começou muito mal, em 12 jogos conquistamos apenas 11 pontos. Era o pior início de Premier League da história do Chelsea. O clima estava péssimo, mas a torcida apoiava o técnico e pedia a saída de diversos jogadores. Mas não adiantou, em dezembro de 2015 Mourinho foi demitido e o clube teve que arcar com uma rescisão de contrato gorda ao português. Foi a pior colocação do time na história da Premier League, 10° lugar.

Emenalo mostrava força nos bastidores com a queda de Mourinho, e com isso, minava Marina na diretoria. 

Antonio, Antonio, Antonio…

Marina contra-ataca! A russa não deixou barato e trouxe Antonio Conte para o comando técnico para a temporada 2016/17. Nesse momento, o Chelsea era terra arrasada e o italiano teria uma árdua missão: resgatar o DNA da equipe e recolocá-la entre os grandes novamente. 

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Conte foi muito importante nessa fase, na qual a briga nos bastidores por poder era intensa. A diretoria o apoiou bastante nessa primeira temporada, tanto que nos sagramos campeões.

Nova temporada, vícios antigos

Na temporada 2017/18, Conte assina uma extensão de contrato por 2 anos e, já na janela de transferências, a campanha já se mostrava no que poderia se tornar. Perdemos nossa lenda, líder e capitão, John Terry. O vestiário não tinha mais nenhuma referência dos tempos que fomos campeões europeus. 

Além disso, uma briga exacerbada entre Conte e Diego Costa agitou os bastidores durante a pré temporada. Essa briga era engarrafada e já estava para explodir desde a temporada passada. A diretoria apoiou Conte e vendeu Diego Costa de volta para o Atlético de Madrid. 

O pacotão do fracasso

Se há uma temporada que o Chelsea foi mal em 90% das contratações, foi essa de 2017/18. Salvou somente o Rüdiger. Foram contratados: Morata, Bakayoko, Emerson Palmieri, Drinkwater, Rudiger, Zappacosta, Giroud, Barkley e Caballero. Um erro atrás do outro. 

A demissão de Emenalo

Esse não foi um erro da diretoria, mas talvez o timing da demissão tenha sido, uma vez que o trabalho nessa temporada já estava indo por água abaixo e fatalmente ficaríamos de fora da Champions League. Isso um ano após sermos campeões da Premier League, um trabalho e tanto! 

Em novembro de 2017, Michael Emenalo é desligado de suas funções e Marina Granovskaia assume com plenos poderes o futebol do Chelsea. 

O imbróglio envolvendo Conte e Sarri

Antonio Conte ainda terminou a temporada 2017/18, na qual ganhamos uma FA Cup e ficamos em 5° lugar da Premier League. 

Finda a campanha, o Chelsea resolve buscar um novo treinador. A diretoria estava decidida a buscar alguém que mudasse o jeito de jogar da equipe, e esse treinador era Maurizio Sarri. Porém, antes mesmo da pré-temporada começar, já estávamos envolvidos em uma nova polêmica. O Napoli fazia jogo duro negociando a saída de Sarri para os Azuis de Londres que, por sua vez, também não se deixavam levar pelos "luxos" ($) que o Napoli pedia. Foi um verdadeiro jogo de paciência, o qual Marina estava habituada a jogar. Aliás, toda negociação do Chelsea é uma novela. Por fim, um dia antes do primeiro jogo da pré-temporada, fechamos Maurizio Sarri e demitimos Antonio Conte. 

Um "detalhe" disso tudo: a demissão Antonio Conte foi por justa causa, algo que causou bastante estranheza a todo mundo. E assim começou 2018/19 para o Chelsea: confuso. 

Clima ruim em Stamford Bridge

Ao contrário do que se imaginava, a campanha transcorreu de maneira tranquila, na medida do possível, e terminamos a Premier League em 3° lugar. Além disso, vencemos a Europa League de maneira invicta, derrotando o Arsenal na final por 4x1. Porém, era comum ver em Stamford Bridge um clima de apreensão, ou até de nervosismo além do normal. A torcida mal interagia com os jogadores e diversas vezes xingavam Sarri. João Castelo Branco reportou sobre isso algumas vezes e a relação de Sarri e a torcida ia de mal a pior. O italiano foi um dos poucos (senão o único) técnico a não ter nome gritado e exaltado durante toda a temporada. Dessa forma, em julho, Maurizio Sarri deixa o comando técnico do Chelsea para treinar a Juventus. 

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Mais uma vez, a direção analisou mal o seu técnico. Desde o início da linha do tempo contada no texto, foram 9 técnicos (contando os interinos não citados). É muita incompetência. 

Transfer ban

O ápice, a coroação, a "cereja do bolo". O Chelsea, mais uma vez, é punido pela Fifa e fica impedido de contratar. Foram 69 transferências ilegais de crianças para as categorias de base. É alarmante o nível de incompetência e amadorismo de nossa diretoria, como um todo.

A volta de Cech, um governador do Chelsea

A torcida do Chelsea chamava alguns jogadores de "governadores", entre eles Petr Cech, que voltava ao seu clube de coração para exercer a função de Consultor técnico na parte do futebol. Qual o intuito? Cech virar um escudo para Marina? A russa estava pressionada devido a diversos fracassos e precisava ser protegida. Eis que Cech retorna. 

Erros acontecem, com o Chelsea é rotina

Depois de muito tempo e muitos flertes com o Real Madrid, Eden Hazard nos deixa. A perda técnica é imensurável, a perda fora de campo de um ídolo é irreparável, mas jogadores vão e fica o Chelsea. Porém, é mais um erro da diretoria, deixá-lo sair pelo valor que foi e ficar refém de jogador por estar em último ano de contrato. 

Super super Frank, super super Frank…

Nossa entidade máxima retorna ao clube para substituir Maurizio Sarri em meio a um impedimento de contratações, saída de Hazard, uma Premier League mais forte que nunca e um elenco jovem demais para suportar a pressão do Chelsea. Lampard, que tinha treinado o Derby na temporada anterior e ido bem, volta à sua casa para assumir uma equipe que destroça seus técnicos e ídolos sem dó. 

Caiu o transfer ban! Vamos contratar?

Não. O Chelsea pagou sua multa, todos os trâmites necessários para apelar e ganhar a causa, fazendo com que o transfer ban fosse diminuído para uma janela de transferências apenas. Porém, não contratou ninguém. 

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Mais uma vez, o Allan mostrou como a diretoria errou com Frank Lampard e não foi pouco. Prometeu a ele £150 milhões em contratações e não trouxe sequer um jogador.

O elenco é muito jovem e possui grande potencial, mas algumas posições são carentes e não há ninguém na base que supra. Mesmo que houvesse, estamos falando de jovens, vão oscilar e precisam de jogadores experientes ao lado para crescerem e se manterem confiantes. 

O Chelsea é gigante, um clube global! Já falamos sobre as receitas do Chelsea em um podcast e texto para o site. O clube arrecada bem, mas gasta mal seu dinheiro em contratações equivocadas demais.

Agora, nem em contratações gasta, e o que temos são só as promessas de um dia melhor que está longe de acontecer. Depois disso tudo exposto, devo confiar na diretoria? Não, obrigado.


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1 Comentários

  1. Linha do tempo terrivel, fiquei até triste com tanta coisa errada nesse time que amamos.

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