Roman Abramovich, após quase 18 anos: "O clube estava aqui antes de mim, e seguirá aqui depois de mim"

Em rara aparição, proprietário do Chelsea se abriu sobre passado, presente e futuro dos Blues

Desde que comprou o Chelsea Football Club em junho de 2003, numa transação que chamou atenção do mundo inteiro, Roman Abramovich (54), pouquíssimas vezes foi visto dando declarações. Essa semana, entretanto, o russo deu longa entrevista à Lee Igel, publicada no site da Forbes, onde discorreu sobre diversos assuntos ligados ao clube.

Oligarca russo comanda os Blues desde 2003 (Clive Mason / Getty Images)

A paixão pelo esporte


Viajando por toda Europa à negócios, o bilionário se viu atraído por várias partidas de futebol e o interesse cresceu rapidamente, quase como uma fixação. “Havia tanta emoção, tão contagiante. Me lembro de pensar, ‘Quero ser parte disso,’’ relembra Abramovich. “Não há uma fórmula para se vencer partidas de futebol. Um treinador ou treinadora e sua equipe precisam considerar muitos fatores ao encarar cada jogo. É como se cada dia fosse uma nova prova onde seu trabalho será avaliado. Eu adorei, e ainda adoro, a imprevisibilidade de como cada partida se desenrola.”

“Parando para pensar, especialmente pela exposição pública que isso me trouxe, talvez eu pensasse diferente sobre comprar um clube de futebol. Mas, na época, eu só via esse jogo incrível e queria fazer parte dele de um jeito ou de outro.”

Objetivos em campo e fora dele


A soma substancial de dinheiro investido no crescimento do clube desde o começo de sua gestão ambicionava duas coisas: “criar um time de nível mundial em campo; e garantir que o clube tenha um papel positivo em todas suas comunidades.”

> Em 8': Você consegue nomear alguns dos artilheiros da história do Chelsea?

Abramovich afirma que essas não eram apenas palavras bonitas antes e não o são agora e que quando se afirma algo, é preciso fazer acontecer, “especialmente se você é alguém que não fala muito, tudo que você diz importa muito,” declarou o bilionário. “Futebol é sociedade. É parte da sociedade e ela é parte do futebol. Então, o estado natural do futebol é estar envolvido, apoiar e estar presente na comunidade”.

Ambas ambições do proprietário estão enraizadas na estratégia que levou o Chelsea à recrutar grandes talentos dentro, ao redor e fora de campo. Homens, mulheres e jovens que ergueram 36 troféus na Inglaterra e no continente europeu. “Acredito que os títulos falam por si só e mostram o que conseguimos alcançar como clube ao longo dos anos, e é meu objetivo que sigamos vencendo daqui pra frente e construindo para o futuro.”

Didier Drogba foi uma das muitas estrelas vitoriosas na Era Abramovich (Peter Kneffel/EPA)

Muito mais do que um time de futebol masculino


Atualmente, dezenas de milhões de torcedores, mais de 500 clubes oficiais e mais de 100 milhões de seguidores nas mídias sociais acompanham o Chelsea em locais ao redor do mundo inteiro. O clube, comprado por £140 milhões, hoje é avaliado em £2 bilhões. Mas, para Abramovich, “o futebol não é somente uma oportunidade de negócios. Futebol é um esporte comunitário. O Chelsea é uma comunidade. Precisamos abraçar toda essa comunidade no trabalho e nos investimentos em que focamos”.

“O Chelsea tem uma história muito rica, e me sinto extremamente afortunado por fazer parte dela. O clube estava aqui antes de mim, e seguirá aqui depois de mim. Meu trabalho é garantir todo sucesso que podemos alcançar hoje, bem como construir o futuro. Por isso o sucesso da nossa academia em Cobham é tão importante para mim.”

“Chelsea não é só o time masculino principal. É o time feminino, é o time de base, a academia, é seu apoio aos ex-jogadores do clube. Isso é algo que começamos desde o primeiro dia. Há crianças, mulheres, homens, ex-jogadores, jogadores atuais e futuros jogadores - todos eles precisam ser bem recebidos e parte de como conduzimos os negócios.”

> A redenção de Fran Kirby

Um bom exemplo do que diz Roman é o time feminino, que se tornou parte do clube desde o segundo ano do mandatário. O suporte dado ao elenco - uma base em Cobham, um estádio e a busca por partidas amistosas ao redor do mundo - esteve à frente da curva da maioria dos clubes. O magnata, entretanto, não tem interesse nessas comparações, que para ele fogem do que realmente importa.

“Não vejo razão para que os clubes não apoiem o futebol feminino e provenham as melhores oportunidades possíveis para seu sucesso. O futebol feminino tem enorme potencial, se recebesse o mesmo nível de apoio do masculino, o esporte obviamente teria o mesmo sucesso como negócio. E acredito que investimentos se pagam, o sucesso delas demonstra o que se pode alcançar com recursos e a liderança certa. Emma Hayes tem sido extraordinária em seu trabalho com o time.”

Em 2019, Abramovich levou Emma Hayes e o Chelsea Women em visita à Israel. (Shahar Azran/CFC/PA)

Devolvendo à comunidade


A cada ano, através da Chelsea Foundation, mais de um milhão de participantes, em 20 países, se engajam em 500 programas que utilizam o futebol e o esporte para auxiliar numa gama de problemas de cunho social, humanitário, educacional e profissional. “Com o esporte de alto nível vem também uma oportunidade, e temos orgulho de nossa fundação ser a maior de todo futebol no Reino Unido”, diz Abramovich. “Espero que os torcedores e a comunidade como um todo possa ver o mesmo nível de comprometimento no nosso apoio à eles quanto temos pelo nosso time.”

Seja mantendo o salário de todos funcionários como se os jogos estivessem ocorrendo normalmente, prestando suporte à equipe da OMS com alimentação e acomodações, ou prestando apoio on line à jovens e idosos, a Chelsea Foundation tem sido um exemplo de responsabilidade durante o período da pandemia.

“Espero que os projetos que apoiamos como clube estejam ajudando, e sou grato a todos torcedores que também doaram seus esforços às nossas iniciativas durante a pandemia.”

Roman era presença frequente em Stamford Bridge, até ter visto revogado, em 2018. (Getty Images)

Pautas sociais e envolvimento pessoal


No topo da lista de iniciativas, está o enfrentamento ao antisemitismo, racismo, e outras formas de discriminação, seja no futebol ou fora dele. “Racismo, antisemitismo, são todos o mesmo tipo de maldade e não deveriam ter lugar no mundo,” afirma Roman. “Toda vez que recebo exemplos de abuso racial que nossos jogadores enfrentam, fico chocado. É uma desgraça que isso seja realidade não somente para eles, como para todos alvos desse tipo de assédio. Se o clube pode fazer a diferença nessa área, combatendo e promovendo a tolerância, eu me determino a me colocar ao lado dessa causa e contribuir de todas formas que puder.”

> A gestão de elenco de Thomas Tuchel

Mesmo em 15 anos sem uma entrevista à mídia ou uma conferência de imprensa, Abramovich comunicou seus pensamentos em diversas situações, no que tange à responsabilidade social. Seja através de textos para a campanha Say No To Antisemitism (Diga Não ao Antisemitismo) ou em cartas pessoais, entregues a cada jogador após Reece James ter sofrido abuso online no início deste ano, o proprietário sempre deixou claro seu posicionamento. “Esses são temas muito muito grandes e muito, muito importantes. De um nível que exigem que eu mostre que estou pessoalmente engajado e ao lado deles.”

Quanto a outros assuntos, o russo-israelense mostra pouco interesse em se colocar pessoalmente em evidência. "Nunca foi minha ambição obter proeminência pública pessoal”, contempla. Seu sentimento é que a performance do time, do treinador, direção e clube “deve falar por si. Não ajuda em nada ficar tecendo comentários.”

Ao demitir Lampard, ídolo do clube, Abramovich quebrou o protocolo e fez comunicado pessoal. (Getty Images)

Alta rotação no comando técnico do time


No entanto, uma área onde muitos fãs gostariam de ouvir mais comentários é a frequente troca de treinadores - 15 em menos de 18 anos. Para alguns, um indicativo de pensamento impulsivo e de curto prazo nas decisões estratégicas. Abramovich, porém, acredita que isso está mais ligado ao desenvolvimento de uma cultura competitiva do que à uma estratégia em si. Reforça que a cultura no Chelsea é “definitivamente focada em performance, mas ao mesmo tempo receptiva, inclusiva e diversa. Ambos elementos são essenciais para o sucesso e um não funciona sem o outro.”

> Chega ao fim a 'maldição das oitavas'

“Acredito que somos pragmáticos em nossas escolhas,” ele continua. “E estamos confortáveis em fazer as mudanças certas nos momentos certos para garantir que alcancemos nossas ambições a longo prazo. Acredito que isso deixa claro as ambições do clube. Aqueles que chegam entendem os objetivos, seja esportivos, seja no papel positivo à comunidade.”

CEO do Chelsea desde 2014, Marina Granovskaia é braço direito e a porta-voz de Roman no clube. (imago images/PRiME Media Images)

Há vinte anos atrás, Roman Abramovich era apenas mais um entre milhões de aficionados pelo futebol. Dois anos depois, ele se tornava dono do Chelsea Football Club, pela oportunidade de viver “os sucessos, os altos e baixos do futebol” com seu caminhão de investimentos e inovações. Sua contribuição teve impacto imediato no clube, no jogo, nos negócios e na comunidade. Abramovich fez o que prometeu e está comprometido a seguir fazendo.

Postar um comentário

1 Comentários