Super Liga Europeia - A competição que já nasceu morta

Liderada por Florentino Perez, presidente do Real Madrid, a Superliga Europeia não saiu do papel

Por: Allan Pedro Bastos

A notícia da criação de uma nova liga de clubes na Europa caiu como uma bomba no mundo do futebol nesta segunda-feira, 19 de abril. No olho do furacão, 12 clubes "fundadores", como se autointitularam os propositores da ideia, descontentes com as mudanças pelas quais passará o atual modelo da UEFA Champions League e, mais importante do que isso, com a divisão das cotas de patrocínio, direitos de televisão e premiações distribuídas pela entidade. A questão é complexa e multidimensional, este texto não pretende cobrir todas as suas facetas, mas servir como um ponto de partida para compreensão do que pode estar por trás da Super Liga Europeia.

Torcedores do Chelsea protestaram nesta terça-feira (20) contra a Superliga. (Foto: PA)

O formato da competição

Segundo Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e principal voz da Super Liga Europeia, a ideia não é abandonar nem os campeonatos locais, nem as ligas organizadas pela UEFA, mas sim criar uma nova competição reunindo 20 equipes, 15 delas fixas e outras 5 rotativas, que seriam classificadas baseadas em critérios de mérito, ainda desconhecidos. Pela criação da nova Liga, já haviam sido garantidos €3,5 bilhões, a serem repartidos entre os membros fundadores, e havia a expectativa de que a geração de receitas pudesse chegar a ordem de €10 bilhões. Ou seja, esses clubes, que já são alguns dos que têm maior capacidade de atração de receitas no planeta, canalizariam ainda mais recursos para si, o que, por consequência óbvia, natural e até desejada por seus presidentes, donos, CEOs e afins, aumentaria ainda mais o desequilíbrio entre eles e seus adversários locais.

As equipes seriam divididas em dois grupos de dez e disputariam 10 partidas na primeira fase, cinco dentro de casa e cinco fora. Os três primeiros de cada grupo se classificariam diretamente para as oitavas de final, e as duas vagas restantes seriam definidas a partir de um mata-mata entre o quarto e o quinto colocados de cada grupo. Daí em diante, as fases finais seriam disputadas em um mês, e a grande final, disputada em jogo único e em campo neutro, escolhido antes do início da competição.

Divulgação European Super League

Para além disso, não havia espaço para qualquer tipo de mérito nesta forma de organização, já que o poderia financeiro estaria tão desproporcionalmente concentrado nas mãos dos formadores, pela sua participação continuada na competição (o que lhes renderia o dinheiro garantido anualmente), que os 5 rotativos não seriam nada além de convidados de honra, que se beneficiariam financeiramente no ano em que participassem, mas que virtualmente não teriam a menor chance de conquistar o troféu.

Os 12 fundadores

Arsenal, Atlético de Madrid, Barcelona, Chelsea, Inter de Milão, Juventus, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Milan, Real Madrid e Tottenham - 12 agremiações representando apenas três países, mas que concentram boa parte das receitas (e das dívidas) do futebol mundial. Há, nesse conjunto, tanto alguns dos clubes mais tradicionais da Europa, como Milan, Liverpool, Man United e Real Madrid, quanto os "novos ricos" Chelsea, Manchester City e Tottenham

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A nova competição previa, ainda, 3 membros fundadores adicionais, não conhecidos, e aqui também havia espaço para especulações: quem seriam esses três faltantes e por que ainda não foram revelados? Perguntas que ficaram sem respostas e tampouco serão respondidas, já que a iniciativa, divulgada e alardeada dia 19/04/2021, teve seu fim anunciado no dia seguinte, em grande medida por pressão dos próprios torcedores e dos apaixonados pelo esporte ao redor do globo.

Por que criar uma competição a parte?

As razões que levaram essas equipes a se juntarem a ponto de bater de frente com a UEFA não são inteiramente conhecidas (além da ganância de fazer parte de um grupo seleto de super ricos sem burlar o tão temido Fair Play Financeiro), mas algumas delas são possíveis de se imaginar. Em primeiro lugar, é importante destacar que não existem somente mocinhos ou vilões nessa história. Ambos os lados, UEFA e clubes, estão preocupados e defendendo seus interesses. À entidade, não interessa abrir mão do controle sobre suas competições, inclusive financeiro, enquanto os clubes acreditam que lhes cabe uma fatia maior do montante total que as competições movimentam, além de maior autonomia decisória.

Em segundo lugar, a crise provocada pela Covid-19 gerou impactos em todos os setores da sociedade, e o futebol, por mais que pareça, não é um mundo a parte. Ainda que não tenham sido afetados da mesma maneira, todos os clubes viram suas receitas reduzidas nessas duas últimas temporadas. A injeção inicial de recursos pela criação da Super Liga, mais os direitos de transmissão, as cotas de patrocínio e as premiações por "mérito", representariam uma fonte de geração de "dinheiro novo" (uma expressão que está em moda no futebol atual) sem precedente e que não poderia ser rivalizada pelas equipes excluídas do "clubinho", salvo raras exceções, e pelas equipes de médio e pequeno porte.

Finalmente, queiramos ou não, estes são alguns dos clubes que mais movimentam torcidas e paixões mundo a fora, uma vez que todos os 12 fundadores são marcas globalizadas e seus mandatários têm a exata noção do que isso é capaz em termos de atração de investimentos. Em bloco, possuem o poder de colocar a UEFA contra a parede, mas, honestamente, escolheram a pior e mais podre maneira de fazer isso.

A opinião do Blues Of Stamford

Nós, do Blues Of Stamford, somos terminantemente contrários à ideia da Super Liga Europeia. Em que pese concordarmos que a UEFA precisa de maior transparência em seus contratos e nos repasses de recursos que realiza para as equipes e legitimarmos tal reivindicação dos clubes, discordamos frontalmente da forma como isso tem sido feito. O projeto da Super Liga é elitista, aprofunda desigualdades entre seus membros e todos os restantes times da Europa e não se baseia, em absoluto, no mérito ou em critérios objetivos para sua formação, mas apenas na relevância mercadológica - no momento presente - de seus fundadores. Vamos aprofundar esses argumentos abaixo.

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É elitista porque congelaria e concentraria um poder financeiro nas mãos de seus membros fundadores que dificilmente poderia ser alcançado por quem não está no grupo. Em vez de aperfeiçoarem suas formas de gestão e buscarem o equilíbrio em suas contas, Florentino Pérez (Real Madrid), Joan Laporta (Barcelona), Andrea Agnelli (Juventus), Ed Woodward (Manchester United) e os demais do clube dos "mega-individados" preferiram o caminho mais fácil, aproveitando-se do tamanho de suas marcas. 

Existem, ainda, os que seguiram essa liderança pelo simples medo de ficarem de fora e virem seus principais rivais deslancharem financeiramente, que parece ter sido o caso de Chelsea, Manchester City e Atlético de Madrid. Aqui, é importante uma nota: isso não os torna menos responsáveis pela atitude que tiveram, de aderir. Se a decisão de se juntar foi mesmo baseada nisto, foram covardes, fracos, incapazes de lutar contra algo manifestamente imoral.

O aprofundamento de desigualdades é uma consequência natural e, em grande medida, desejada pelos cartolas. Do contrário, estariam trabalhando para reformar e transformar a Champions League, principal campeonato de clubes do mundo, de forma a dar mais autonomia para decidir aos participantes. Nunca é demais lembrar que os torneios são o que são por causa dos clubes e da competitividade que geram, não das federações que os organizam. O que torna o futebol um esporte tão envolvendo é o fato de equipes de menor expressão terem a chance de competir de igual para igual em uma partida de 90 minutos. Com a Super Liga, seria praticamente impossível ter um Ajax, um Lyon ou uma Atalanta chegando às semifinais.

A escolha - ou adesão, talvez o termo mais apropriado - dos membros fundadores também é bastante questionável. Arsenal, Tottenham e Milan, por exemplo, mais têm figurado fora do que participado da elite europeia e, dos três, somente os italianos já foram campeões da UCL - 5 vezes. O que parece é que, à exceção dos três da Espanha e do Manchester City, que dificilmente falham em se classificar, os demais se cansaram de competir e de ficar fora vez por outra e, novamente, optaram pelo caminho simplificado, uma competição que lhes encheria os bolsos e ainda garantiria grandes jogos todas as temporadas.

Seja como for, a Super Liga Europeia morreu antes mesmo de ver a luz do sol, e é ótimo que seja assim. Que os clubes demonstrem essa união para melhorar a UEFA, suas competições e pensem na coletividade, em vez de tomarem decisões que não levam o esporte adiante, mas sim o faz regredir aos primórdios de sua fundação, no século XIX. Para os 12 rebeldes, fica a lição: não são nada sem suas torcidas, e nada conseguirão sem que elas estejam a seus lados. Podem ter donos, acionistas, proprietários ou o que for, mas não deixaremos que acabem com nossa paixão por uma ganância desmedida e desenfreada.

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