'We hate Tottenham': será mesmo?

Uma breve historia sobre cockneys, yids e antissemitismo 

Por Gladson Rafael

Quatro de Dezembro de 1935, uma tarde tipicamente londrina, perfiladas no gramado do saudoso White Hart Lane estavam as seleções da Inglaterra e a Alemanha nazista de Adolf Hitler, disputariam ali uma partida que representava muito mais que o jogo apenas.

A pergunta que você deve fazer é: por que o estádio do Tottenham foi o escolhido para receber tal jogo? Faltou bom senso para quem "organizou" esse evento ou foi de propósito? Escolher o norte de Londres, onde milhares de judeus moravam, sendo que a maioria havia fugido justamente do genocídio em curso ao seu povo liderado por Hitler... penso que nem jogo deveria ter ocorrido, mas esse papo é outro!

Common Licenses

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A torcida dos Spurs tem sua história fortemente ligada ao judaísmo. A comunidade judaica em Tottenham começou a crescer no início do século 20. Judeus da Europa Oriental chegaram à Grã-Bretanha a partir de 1880, com um aumento repentino em 1905/06, à medida que sua perseguição se intensificou. Muitos se estabeleceram no East End em meio à comunidade judaica já estabelecida há muito tempo por lá. Outros então se mudaram para o norte, aproveitando as boas ligações de transporte e as perspectivas de emprego na área de Tottenham, encorajados a sair das superlotadas Whitechapel e Brick Lane.

Jewish London Museum

Nos 30 a 40 anos seguintes, o Tottenham tornou-se parte da vida desses homens judeus predominantemente da classe trabalhadora que viviam e dividiam as ruas do North London com os Cockneys, termologia essa usada para chamar, de forma pejorativa, pessoas que desde 1600 já habitavam a região norte londrina, composta em sua maioria por trabalhadores, pessoas simples e de costumes, digamos, não tão caracteristicos ao resto da cidade, além de carregarem um sotaque deveras diferenciado, junto a outros atributos, que anos depois se tornaria uma espécie de sub-cultura até hoje vigente.

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Muitos judeus, especialmente a segunda geração que nasceram no bairro, chamam Tottenham de lar, buscaram pertencer, criaram identidade nos terraços de White Hart Lane. Eles não foram os únicos: a história está intimamente ligada à vida dos recém-chegados, dos deslocados, dos ambiciosos, dos famintos que foram para o North London em busca de trabalho e uma vida melhor. Gerações encontraram conforto e camaradagem nos balcões dos pubs entre a massa oscilante que seguem o azul marinho e o branco. Através de seu clube são expressas esperanças e aspirações de fazer parte de algo, de ser alguém. O Hotspur era o Tottenham, um lugar de acolhimento.

The Evening Standard

Em meio ao crescimento da cidade, fazendo parte de um recorte de comunidade onde, aos olhos do opressor, cockneys e judeus eram a mesma coisa, surge o termo "Yids", referência pejorativa a “Yiddish” língua tradicional dos judeus Ashkenazi, que misturado ao "dialeto" e sotaque da região ganhou características únicas.

Forçados a responder de forma mais agressiva a insultos abusivos de torcidas rivais, facilmente se tornaram alvo de todos. Muitos na multidão abraçaram o termo a fim de tornar o insulto impotente, porém sem sucesso. Ainda hoje é possível ouvir cantos vindos de uma ridícula minoria do tipo "“Hitler vai mandá-los para o gás outra vez” e outras atrocidades do tipo, além do infame "Nós odiamos o Tottenham, nós odiamos o Tottenham".

A história sempre se encarrega de mostrar quem estava errado, e que motivos teríamos para "odiar" o Tottenham se não apenas nas quatro linhas? 

Rivalidade na bola

It's Signed Brand

Final da Copa da Inglaterra de 1967, diante de 100 mil expectadores, Chelsea X Tottenham jogariam sua primeira decisão como adversários no gramado do velho Wembley.

Dois times fortes com nomes lendários em seus elencos; Pat Jennings, Cyril Knowles, Alan Gilzean, Cliff Jones e Jimmy Greaves a estrela maior com 379 jogos e 266 gols pelos Spurs. Do lado Blue "somente" Peter Bonetti, Bobby Tambling e Ron Harris, final pesada demais. Aos 90 minutos jogados, Chelsea 1 x 2 Tottenham e titulo para os comandados de Bill Nicholson.

Apenas 48 anos depois iriam se enfrentar novamente em uma final, novamente em Wembley, mas agora pela Copa da Liga 2008. Em um jogo bem inusitado a começar pelos técnicos, Juande Ramos e Avram Grant, nomes que por si só creio dispensar maiores explanações sobre suas passagens pela Inglaterra. 

Já no início da partida Belletti tentou ajudar os Spurs com uma assistência para Robbie Keane (comemoração de gols maneiríssimas), que não aproveitou o presente do defensor. Essa foi basicamente a ordem do fraco jogo, muitos erros e chances oferecidas e desperdiçadas por ambos os lados.

Drogba abriu o placar para os blues (quem poderia imaginar), Berbatov converteu a penalidade marcada após um atrapalhado tapa na bola de Wayne Bridge, empate no tempo normal. Veio o tempo extra, e o que parecia ser uma prorrogação sem maiores mudanças, não foi! Em falha horrorosa de Petr Cech em saída pelo alto, espalmou a bola na cabeça de Woodgate. Bola na rede e 2 x 1 Spurs.

'Mourinho is back'

Reprodução Chelsea Football Club

Bem mais fresca na memória do torcedor é a final de 2015, também na Copa da Liga, que marcava o retorno de Special One ao comando do Chelsea. Mourinho que num futuro próximo chegaria para treinar os Spurs. No jogo, mesmo com um bom time, o Tottenham de Lloris, Walker, Eriksen e Harry Kane desta vez não fez frente à John Terry e seus Bluecaps. Com gols do próprio capitão ao fim do primeiro tempo e Diego Costa na etapa final, o Chelsea levantaria sua quinta taça da competição.

Essas três finais talvez sejam o expoente de um clássico com mais de 100 anos de história. Recortes de uma rivalidade de muita tradição, entre disputas no meio da tabela e brigas para fugir do rebaixamento (que por anos foi extremamente normal), vencer um Derby em meados dos anos 80 era, para além do "titulo particular" no campeonato, a certeza da alma lavada durante o restante do ano. No refeitório da fábrica, no armazém, na banca de jornal, na ida ao açougue, no jantar de natal, nos dias do Hanukkah, até a chegada do novo embate. 

Antes que você imagine que nos dias de clássico as ruas eram tranquilas e o clima era amistoso a resposta é NÃO, mas para contar sobre a violência que tomava contas das ruas precisamos de um texto dedicado somente a ela!

Chelsea Football Club

Por hora nosso dever é combater e punir toda e qualquer manifestação racista, xenofóbica, antissemita e similares. Preconceito, hostilidade ou discriminação não fazem parte de nós. Ah! E muito cuidado com o que você canta sem saber o significado real!

O professor Anthony Clavane diz que o futebol é: "Um espaço onde a identidade étnica se conectou, até mesmo se entrelaçou, com a identidade nacional; uma arena onde os judeus lutaram contra a noção de que eram invasores que precisavam ser repelidos... "

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Não façamos dos escombros do White Hart Lane um Muro das Lamentações. Pensando bem, talvez se Guy Ritchie (amigo de Mourinho) criar um roteiro com sua estética para contar essa história não seria de todo mal, até imagino a Natalie Portman contracenando com o Daniel Radcliffe ao som de 'Rolling in the Deep', da Adele.

Bom jogo a todos! Cheers!

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